Árbitra que foi alvo de machismo de jogador do Bragantino fala pela 1ª vez: ‘Dentro do campo, eu não negocio respeito’
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Em entrevista exclusiva a Marie Claire, Daiane Muniz falou sobre o episódio de machismo que sofreu no Campeonato Paulista e sobre como lida com a pressão da profissão
A cena é a clássica entrevista pós-jogo, o jogador derrotado em campo tenta justificar a derrocada do time e coloca a culpa na arbitragem. Mas, dessa vez, a fala não diz respeito a um suposto erro de marcação do juíz. Após a eliminação do Red Bull Bragantino nas quartas de final do Campeonato Paulista contra o São Paulo, no dia 21 de fevereiro, o zagueiro Gustavo Marques questionou a escalação de uma mulher em um jogo decisivo.
"Não adianta colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho", declarou, sem constrangimento, diante das câmeras de TV. O alvo da fala machista era Daiane Muniz, 37 anos. Ela é árbitra oficial da FIFA, apitou partidas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 e já atuou em diferentes edições da Copa do Mundo de Futebol Feminino, tanto na categoria principal quanto nas categorias de base.
A repercussão foi imediata. Apesar disso, Daiane afirma que não quer sua trajetória resumida ao episódio e acredita que se manter firme na profissão que escolheu é a melhor forma de passar o seu recado. Decidiu, na época, não falar com a imprensa, mas, na semana passada, atendeu Marie Claire para uma conversa sobre o que viveu naquele jogo e também sobre sua caminhada profissional, num espaço ainda tão desafiador para as mulheres.
“Eu acredito que, dentro de campo, a gente precisa falar sobre liderança. E liderança, independentemente do gênero, é a capacidade de se sustentar. O futebol me ensina que liderar não é impor, mas sustentar uma decisão sob pressão”, afirma em entrevista exclusiva.
Após as declarações de Marques, o Tribunal de Justiça Desportiva do Estado de São Paulo (TJD-SP) puniu o jogador com uma suspensão de 12 jogos, além de multa de R$ 30 mil. Para Daiane, que se tornou árbitra movida pela paixão por futebol, a decisão faz parte da mudança que vem sendo construída pelas mulheres no esporte.
“Dentro do campo, eu não negocio o respeito. Mas eu acredito que o futebol está mudando e que, cada vez que uma mulher ocupa esse espaço com competência, essa mudança avança um pouco mais.” Leia, abaixo, trechos da entrevista.
MARIE CLAIRE O que te motivou a ser árbitra?DAIANE MUNIZ Acho que começa com uma história simples: a de uma menina que ama futebol. Eu vivi o futebol desde os meus primeiros anos de vida. Lembro que brincava muito com os meus primos de bola na rua, e isso se manteve comigo. Eu cresci assim, mas sempre percebendo que a presença das meninas era diminuída.
MC Por que você escolheu ser árbitra e não jogadora de futebol?DN Quando eu jogava – e eu jogava bem –, morava no interior de São Paulo e havia pouquíssimas oportunidades. Hoje o futebol feminino evoluiu muito e continua evoluindo bastante, tanto na quantidade quanto na estrutura para as meninas jogarem. Naquela época, isso era muito mais difícil. Eu me formei em Educação Física, porque acreditava que era uma profissão que iria me manter o mais próximo possível do futebol, mas a arbitragem nem passava pela minha cabeça. Até que recebi uma proposta para ser árbitra assistente. Lembro que entrei em campo e já sabia o que fazer, mesmo nunca tendo tido nenhuma instrução sobre arbitragem. Vivia tanto aquilo que entrei em campo sabendo o que fazer.
MC Teve alguma mulher que foi uma inspiração para você na arbitragem?DN Na verdade, isso aconteceu alguns anos depois, quando eu entendi que a arbitragem era uma carreira e poderia me levar a uma versão diferente daquela Daiane criança que gostava de jogar futebol. Fiquei impactada quando assisti à Copa do Mundo feminina de 2019. Percebi que, dentro do mais alto nível do futebol mundial, também havia um cenário feminino. Mas temos várias referências no Brasil de mulheres que atuaram em épocas passadas. A gente tem Sílvia Regina, Ana Paula de Oliveira e Edina Alves, que ainda atua. Foram mulheres que romperam barreiras, que estavam em uma época e em um cenário diferentes dos de hoje. E, com certeza, abriram caminhos para a gente e para quem ainda vai vir.
MC Você lembra de outras situações de machismo que te expuseram, como a que aconteceu recentemente?DN Sim. Situações como essa, ou situações em que o machismo aparece nos detalhes, fazem parte de um ambiente que ainda está em transformação. Eu acredito que não é sobre o que aconteceu comigo, mas sobre o que isso representa e como a gente pode se posicionar. Nós, árbitras, líderes. Dentro do campo, eu não negocio o respeito. Mas eu acredito que o futebol está mudando e que, cada vez que uma mulher ocupa esse espaço com competência, essa mudança avança um pouco mais.
MC Você sente que precisa impor uma presença mais dura para que os jogadores te respeitem em campo?DN Eu acredito que, dentro de campo, a gente precisa falar sobre liderança. E liderança, independentemente do gênero, é a capacidade de se sustentar. O futebol me ensina que liderar não é impor, mas sustentar uma decisão sob pressão. No início, eu pensava que, por ser mulher, eu teria que provar mais. Mas, com o tempo, entendi que é sobre se sustentar com consistência. Estamos falando de profissionalismo. Quando você se mantém consistente, as dúvidas dos outros deixam de ser relevantes. Isso é um processo, é uma construção.
MC Existem jogadores que apoiam a arbitragem feminina?DN Sim. Eu vejo que os conheço cada vez mais. Eles se apresentam como profissionais, como homens, como seres humanos que entendem, aceitam e também se transformam de acordo com o ambiente em que estão inseridos. Alguns jogadores me abordam, têm total respeito pelo meu trabalho. Eu acredito que a pressão existe pela figura do árbitro, e não pela figura da mulher árbitra. Muitas vezes, o jogo é definido por alguma decisão, questionável ou não, do árbitro. Então, naturalmente, a gente já é treinado para lidar com essa pressão.
MC Ainda sobre o episódio recente: o jogador foi a público se desculpar. Você acha que as desculpas e a posição da federação foram à altura do que aconteceu?DN Sim. Eu me senti amparada e representada. Na verdade, me sinto assim com as instituições que represento, tanto a Federação Paulista de Futebol quanto a CBF. Acredito que a postura delas, além do apoio que trazem pela causa, é o mais importante nesse caso. Eu, como profissional, tenho minhas estratégias para seguir, para não ser abalada, para não entender isso como algo que vá me prejudicar ou diminuir a minha força mental. Mas as instituições fizeram o papel delas. Acredito que, principalmente, fazendo com que as mulheres possam estar dentro de campo. Porque é ali, ocupando espaço, que a gente vai mostrar que tem capacidade para estar em qualquer jogo de futebol.
MC A Copa do Mundo masculina é neste ano, e também haverá a Copa do Mundo feminina, no ano que vem. Quais são as expectativas para a sua carreira?DN Eu quero todas elas. O meu maior sonho, aonde eu quero chegar, é no mais alto nível do futebol mundial, falando mesmo em Copa do Mundo, feminina e masculina. E quero também que a minha trajetória tenha significado – não só para mim, mas pelos caminhos que ela pode abrir.
MC O que você diria a uma menina que pensa em seguir a carreira na arbitragem hoje?DN Que o medo vai existir, mas ele não pode ser maior do que o desejo de estar ali. A gente não precisa esperar o ambiente estar pronto para nós. A nossa presença pode começar a transformar esse ambiente. Quero falar sobre o que é ser uma mulher forte. Situações como essas podem acontecer, episódios isolados podem acontecer, mas é muito importante que a gente nunca se abandone, que continue sendo quem a gente é. Mesmo em ambientes que tentam nos diminuir para fazer a gente caber.




